Investidores globais que controlam US$ 3 trilhões exigem medidas políticas para interromper o desmatamento até 2030
• 30 investidores institucionais, incluindo o Pictet Group e a DNB Asset Management, apoiam a Declaração de Investidores de Belém sobre Florestas Tropicais.
• O mundo perdeu 8.1 milhões de hectares de floresta em 2024, devido à agricultura e aos incêndios florestais.
• Os investidores clamam por estabilidade jurídica, regulatória e financeira para proteger as florestas e os mercados globais.
Investidores globais se mobilizam antes da COP no Brasil
Uma coalizão de investidores globais que representam mais de US$ 3 trilhões em ativos pediu aos governos que interrompam e revertam o desmatamento e a degradação dos ecossistemas até 2030, alertando que a perda contínua da natureza representa riscos financeiros materiais para os mercados globais.
A iniciativa, formalizada por meio da Declaração de Investidores de Belém sobre Florestas Tropicais, antecede a conferência climática das Nações Unidas no Brasil, no próximo mês. A declaração, aberta para assinaturas até 1º de novembro, já conta com o apoio de 30 grandes investidores institucionais, incluindo o Pictet Group e a DNB Asset Management.
"Como investidores, estamos cada vez mais preocupados com os riscos financeiros materiais que a desflorestação tropical e a perda da natureza representam para as nossas carteiras”, disse a coalizão. “Sem sistemas naturais estáveis, a própria economia global se torna instável.”
Aumento dos riscos económicos e ambientais
Um relatório divulgado na semana passada revelou que o desmatamento global continua em ritmo alarmante, com uma estimativa de 8.1 milhões de hectares perdidos em 2024 — uma área aproximadamente equivalente ao tamanho da Inglaterra. A expansão agrícola, aliada ao aumento dos incêndios florestais, continua sendo o principal fator.
Investidores alertam que a perda descontrolada de florestas está minando os alicerces da estabilidade econômica global. “A desflorestação prejudica os sistemas naturais dos quais os mercados globais dependem — desde a regulação climática à segurança alimentar e hídrica," disse Jan Erik Saugestad, CEO da Storebrand Asset Management.

O apelo do grupo aumenta a pressão dos investidores sobre governos e corporações para fortalecer cadeias de suprimentos livres de desmatamento, melhorar a governança do uso da terra e implementar incentivos financeiros para a conservação.
Atrasos políticos e ventos contrários políticos
A pressão dos investidores surge em meio à crescente frustração com o atraso na implementação de políticas. No início deste ano, a União Europeia adiou a aplicação de sua regulamentação antidesmatamento por um ano, após forte oposição de parceiros comerciais como Brasil, Indonésia e Estados Unidos. Críticos argumentam que os requisitos de conformidade — destinados a bloquear produtos vinculados ao desmatamento — podem prejudicar os exportadores e aumentar os custos do comércio global de commodities.
Ao mesmo tempo, os acontecimentos políticos nos Estados Unidos trouxeram novas incertezas. O retorno de políticas céticas em relação ao clima sob o governo do presidente Donald Trump reduziu o ímpeto para ações ambientais coordenadas, de acordo com defensores.
"Acredito que Trump tornou mais difícil para investidores e gestores levarem em conta o clima e a biodiversidade em um mercado tão volátil.," disse Ingrid Tungen, chefe de mercados livres de desmatamento na Rainforest Foundation Norway.
Investidores enquadram o desmatamento como um risco financeiro
Para a coalizão de investidores, o argumento vai além da ética ambiental — é um apelo à prudência econômica.Todos os investidores com quem falamos reconhecem o enorme risco de não agirmos contra a desflorestação," disse Tungen. "Não se trata apenas de moral. Ignorar esta crise prejudicará diretamente os mercados — e seus lucros."
A Declaração do Investidor de Belém descreve várias recomendações: políticas de proteção florestal executáveis, dados transparentes sobre desmatamento, incentivos para agricultura sustentável e alinhamento com o Acordo de Paris e o Quadro Global de Biodiversidade.
Os gestores de ativos estão cada vez mais encarando a perda de biodiversidade como um risco sistêmico comparável às mudanças climáticas, com impactos que abrangem preços de commodities, escassez de água e interrupção da cadeia de suprimentos. As instituições financeiras estão agora integrando o risco de desmatamento às estruturas de due diligence e aos processos de triagem de portfólio, refletindo uma mudança mais ampla em direção à divulgação financeira relacionada à natureza.
Um ponto de virada antes da COP do Brasil
Com a conferência climática da ONU marcada para o Brasil — que abriga mais de 60% da floresta amazônica —, a pressão sobre os formuladores de políticas deve se intensificar. O apelo dos investidores coloca o desmatamento, juntamente com a transição energética e os mercados de carbono, como principais itens da agenda.
Para executivos, formuladores de políticas e investidores, a mensagem é clara: o custo da inação está aumentando. As florestas do mundo — vitais para a absorção de carbono, a biodiversidade e a resiliência econômica — estão se tornando um passivo financeiro, não apenas ecológico.
Se os governos globais atenderem ao chamado, a declaração de Belém poderá se tornar um ponto de virada no alinhamento dos mercados de capitais com a proteção das florestas tropicais restantes do planeta — antes que elas desapareçam dos mapas e balanços.
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